O potencial turístico brasileiro

24/03/2014 10:30

Ano de Copa do Mundo, Olimpíadas logo ali. As críticas sobre infraestrutura (ou a falta dela) já são bastante conhecidas. Porém, independentemente desses eventos grandiosos, o Brasil tem um potencial turístico que, a meu ver, nunca foi explorado a contento.

Para analisar essa questão, podemos dividir a atividade turística em diversos critérios. Vamos nos limitar a duas: o objetivo e o público.

Por objetivo me refiro àquilo que vai ser visto no local com a aptidão de atrair turistas: natureza ou história (estou deliberadamente excluindo o turismo de negócios, porque esse é feito por razões profissionais, não pessoais). Quando qualquer pessoa vai viajar, esse é um critério relevante para escolher seu destino. E por que as pessoas viajam para (ou pelo) Brasil? Natureza. Absolutamente natureza. Nossos destinos turísticos mais famosos e estruturados são Rio de Janeiro, Salvador, Natal e as demais capitais praianas. Há um investimento interessante também no Pantanal, Chapada Diamantina, algumas áreas da Amazônia e Foz do Iguaçu. O ponto é: quando se fala em turismo no Brasil esbarramos sempre em Corcovado, Copacabana, dunas, Lençóis Maranhenses, cataratas e outras maravilhas naturais. Somos realmente ricos nesse ponto.

Não se pode negar, contudo, que temos aí uma primeira distorção: é raro investirmos em turismo histórico. O visitante não é incentivado a conhecer nossos prédios antigos ou nossas igrejas barrocas. Vamos ao Rio para andar de bondinho e passear por Ipanema, não para ver como era a vida da antiga capital do país; o sul de Minas é conhecido pelo Carnaval, ninguém mais vai lá ver Aleijadinho; Porto Seguro é famoso pelas praias, baladas e Passarela do Álcool, e foi lá que nossa história toda começou.

Preciso destacar que adoro esses lugares! Temos, todavia, de discutir e distribuir as responsabilidades. Muita culpa é nossa mesmo, do povo, que não valoriza a própria história. No Brasil só se tem olhos para as belezas naturais e para novas obras. São Paulo está recheado de prédios históricos, Minas de belas igrejas, o Nordeste de áreas quilombolas, Araraquara (interior de São Paulo) tem um museu arqueológico a céu aberto! Espaços que contam trechos interessantíssimos sobre nossos quinhentos e poucos anos de vida (ou alguns milhões, no caso dos fósseis de Araraquara). Só que não achamos isso interessante. Recebemos um amigo turista em casa e o levamos à praia.

A outra parte da culpa é do Governo (federal, estadual e municipal, porque todos têm atribuições nessa área), que não investe na manutenção e revitalização desse patrimônio histórico. Em outras palavras, falta deixar bonito para que todo queira ver. Falta acessibilidade. Falta informação em outras línguas (pelo menos em inglês, por obrigação universal, e em espanhol, por respeito a toda a América do Sul), placas explicando a história e significado do lugar. Informação em outras línguas não é placa de trânsito! Para ilustrar: ano passado (2013), o Ministério do Turismo firmou 20 convênios com diversas cidades para repasse de dinheiro público com vistas ao investimento no turismo; 13 deles, mais da metade, R$ 6.600.000,00, destinam-se a “sinalização turística”. Por aqui eu só vi placas de trânsito! Espero que o conceito de “sinalização turística” do Ministério seja um pouco mais amplo.

Gosto de dar um exemplo emblemático: duas vezes por semana passo em frente à igreja de Santa Cecília, em São Paulo. Religiões à parte, é uma belíssima construção, com obras de Bendito Calixto e um majestoso órgão ao fundo da nave principal. Sua inauguração data de 1901 e, mesmo tendo mais de 100 anos, está bem conservada. Nunca vi ninguém visitando; há, no máximo, alguns fiéis em suas orações. Na Europa, por outro lado, os mapas turísticos dão destaque para construções históricas. Quando vamos ver, perdem de longe para a igreja de Santa Cecília. Guardadas as devidas proporções, acho o mesmo da Catedral da Sé, também em São Paulo.

O outro critério, público, liga-se ao turismo interno (feito por brasileiros pelo Brasil) e externo (quando estrangeiros nos visitam). Para nós mesmos, enfrentamos os altíssimos preços cobrados por aqui (tente comprar uma passagem aérea para o período da Copa, por exemplo). Os estrangeiros enfrentam a barreira da língua: mesmo em centros turísticos é difícil encontrar a população preparada, falando inglês e espanhol – decentemente, sem macarronice – além da falta de informações já comentada. Aí é mais fácil levar para a praia mesmo.

Dava para falar de vários outros pontos polêmicos: violência, turismo sexual etc.. Deixo esses para os comentários, ok?

Que o legado da Copa e das Olimpíadas seja, além de estádios, aeroportos e guias rebaixadas para acesso das pessoas com mobilidade reduzida, um povo mais preparado e interessado em explorar o turismo de forma profissional e lucrativa, trazendo benefícios para si mesmo e para o país.

Fonte: https://www.estudeatualidades.com.br/2014/03/o-potencial-turistico-brasileiro/ (Pagina visitada em 24/03/2014)