Caos, Ciência e Marxismo

05/12/2013 11:20

Esquerda Marxista - Neste artigo, o camarada Daniel Morley faz uma análise marxista do documentário produzido e exibido pela BBC sobre a Teoria do Caos e relaciona suas conclusões com a atual do crise do capitalismo.[Daniel Morley] Um novo documentário produzido pela BBC, chamado “A Vida Secreta do Caos”, tentou, com algum sucesso, revelar como os últimos desenvolvimentos na ciência através da “teoria do caos” estão finalmente começando a tornar redundante qualquer explicação religiosa do funcionamento do universo e do surgimento da vida inteligente.

Isto acontece ao se revelar a necessária inter-relação entre ordem e caos em todos os níveis em questão. De fato, a compreensão, ou a “filosofia” subjacente a isto, será familiar aos marxistas como se fosse um espelho da extensão do método marxista, a filosofia do materialismo dialético, que tenta entender o movimento e o desenvolvimento da sociedade através de vários princípios tais como a inter-relação de opostos (daqui a relação entre ordem e caos) e o dinâmico e incessante desenvolvimento do fenômeno, como um sistema complexo baseado em incontáveis interações.

Este fascinante documentário começa com o apresentador, o professor Jim Al-Khalili, descrevendo o enigma de como o corpo humano, responsável por tantas coisas, é em 99% composto somente por ar, água, carvão e giz, com minúsculos traços de ferro, zinco, fósforo e enxofre em complementação. De fato, se decompormos todos os elementos em cada um de nós, tudo junto vale apenas alguns moedas de reais. Em outras palavras, somos muito mais que a soma das partes que nos constituem, algo que o pensamento mecânico, que trata os objetos como átomos que existem essencialmente de forma independente uns dos outros, não pode compreender.

Em seguida, passa-se ao exemplo do trabalho matemático de Alan Turing na explicação da misteriosa “auto-organização”, testemunhada, por exemplo, quando, aparentemente, objetos homogêneos, como o pacote de células idênticas criadas depois da fertilização (conhecida como mórula [fase do crescimento embrionário, NT]), subitamente se diferenciam em tipos diferentes de células.

Como pode acontecer isto? Como é que – na linguagem de Hegel, o precursor filosófico de Marx – temos a diferença através da unidade? Turing estabeleceu a hipótese de que diferentes substâncias químicas, ao se infiltrarem através de um organismo, podem interagir com as células para fazer com que elas se diferenciem e se comportem de maneiras diferentes.

O processo

Curiosamente, na explicação disto, o programa nos informa que Turing comparou este processo ao da formação de dunas de areia através de um “vento constante que sopra a areia e cria todos os tipos de formas diferentes. Os grãos se auto-organizam em ondulações, ondas e dunas, embora todos os grãos sejam quase idênticos e não tenham conhecimento do que está acontecendo”. Essa técnica de comparação completamente distinta dos fenômenos naturais é importante, uma vez que as leis que estão sendo descritas coincidem com as leis do Materialismo Dialético.

No desenvolvimento de um organismo, este processo é conhecido como morfogênese. De forma crucial, como aponta o apresentador, este processo parece ser governado por certas leis e se comporta quase como se fosse pré-concebido. Embora não haja nenhum controle central, nenhuma mente orientando o processo.

Essencialmente, esta descoberta destroça a falsa e rígida dicotomia que sempre se pensou existir entre a natureza aparentemente inanimada e a mente intencional. Os filósofos burgueses sempre consideraram o mundo natural como caoticamente indiferente e sem leis, e é precisamente isto que sempre exigiu a presença de um deus ou de causas externas para definir o universo em movimento e fazê-lo respeitar as leis do jogo, que eram consideradas falsamente como fixas. Dessa forma, William Paley de forma vergonhosa inferiu a necessária existência de deus a partir da aparente ordem do universo, fazendo analogia com a óbvia concepção consciente por trás de um relógio.

Particularmente, foram os problemas causados por esta visão de mundo para explicar a possibilidade do conhecimento objetivo que levaram à descoberta por Hegel das leis dialéticas como imanentes do próprio fenômeno (isto é, advindas de seu próprio íntimo). Devido à rígida oposição, colocada por filósofos como Kant, entre a mente ordenada e unificada e o mundo objetivo natural, tido como caótico e aleatório, chegou-se à impossibilidade de explicar a relação entre as ideias e os objetos aos quais elas supostamente dariam ordem e sentido.

Com efeito, ao considerar este problema, Schelling, que foi colega de quarto na Universidade e precursor filosófico de Hegel, brilhantemente antecipou a evolução e a idéia de auto-organização dentro do mundo natural (isto é, independente da consciência) trezentos anos antes deste documentário ser realizado: “Há uma velha ilusão que diz que a organização e a vida são inexplicáveis através dos princípios naturais... seria pelo menos um passo em direção a esta explicação [da organização natural] se fosse possível mostrar que a sucessão de todos os seres orgânicos tivesse acontecido através da gradual evolução de um só e mesmo organismo”.

Em outras palavras, é a evolução ou o desenvolvimento da própria natureza, resultante da interação constante e extremamente complexa de seus diferentes aspectos, que nos permite falar de regularidades discerníveis e de previsíveis leis gerais aplicáveis a todo o espectro, como os que regulam a morfogênese e a formação de dunas de areia. Aqui vemos outro princípio dialético em jogo – a unidade de opostos, o surgimento da simplicidade através da complexidade e vice-versa.

Imprevisibilidade

Em seguida, o programa aprofunda-se na questão da imprevisibilidade existente dentro de todos os sistemas (incluindo a sociedade humana). O apresentador explica-nos o problema que o pensamento mecanicista, a visão de mundo newtoniana, enfrenta para lidar com a imprevisibilidade e a mudança com as quais os cientistas são confrontados. Aqui ele se utiliza de um interessante exemplo, de um planetário mecânico, o orary (um modelo mecânico do sistema solar onde o operador gira uma roda, que, por sua vez, opera com diferentes engrenagens, movendo modelos dos planetas de forma similar à que os planetas se movem realmente), para retratar essa visão de mundo ultrapassada.

O universo, como o orary, é visto como um sistema completo formado de partes fixas que sempre agem umas sobre as outras da mesma forma. Contudo, há um problema: é que em tempo suficiente e determinado, os verdadeiros corpos celestes não agem uns sobre os outros da mesma forma que antes. A redundância deste método é vista claramente no orary, que na verdade pode somente ser posto em operação por uma força externa – a mão humana – e que requer um complexo sistema de engrenagens que definitivamente não se encontram presentes no verdadeiro sistema solar. Similarmente, a visão tradicional do universo como obedecendo a padrões fixos de comportamento sempre requer um estímulo externo – um deus – para colocá-lo em movimento. Como se explica no programa, este modelo finalmente colapsou quando se revelou incapaz de produzir resultados quando foi usado para prever complexos sistemas como as condições atmosféricas.

O programa tenta conciliar esta complexidade e imprevisibilidade à aparente ordem e regularidade descritas anteriormente. Naturalmente, como já dissemos, não há total imprevisibilidade na natureza. Tudo ocorre dentro de condições definidas, como, por exemplo, a aparente interação aleatória entre cada grão de areia e a única rajada de vento que contribui para a formação de uma duna, na verdade, ocorre dentro de limites definidos, com cada grão sendo necessariamente condicionado pelos milhões de outros grãos em torno dele. Daí resulta a mais ou menos previsível formação de uma duna de areia. A questão é que podemos prever o aspecto geral das dunas de areia, embora não exatamente as características exatas de cada uma individualmente. Este princípio é inconscientemente utilizado por todos; de fato, não poderíamos sobreviver sem ele. Por exemplo: como poderíamos reconhecer cada ser humano como único e, ainda assim, como um ser humano definitivamente semelhante a outros, sem esse princípio? Todos nós sabemos que cada impressão digital é única e, ainda assim, todas as impressões digitais parecem ser ao nosso olhar mais ou menos a mesma.

O programa descreve como as diferenças infinitesimais nos sistemas meteorológicos podem produzir mudanças enormes no resultado por meio de um efeito de retorno – cada minuto de diferença no resultado é realimentado de volta ao sistema como entrada, conduzindo a uma nova mudança e assim sucessivamente até que uma ruptura qualitativa é atingida e um novo estado atmosférico é produzido.

No entanto, gostaria de criticar a representação desta lei no programa, onde ela é descrita como se qualquer mudança nos minutos iniciais, tais como o famoso exemplo do bater de asas da mariposa dando origem a um furacão em outro lugar, fosse o único responsável pela alteração dramática das condições meteorológicas em geral. Na verdade, uma pequena alteração somente é capaz de ter seus efeitos preservados e desenvolvidos devido a uma complexa concatenação de circunstâncias favoráveis à mudança do clima global – em outras palavras, é a “palha que quebra as costas do camelo” [ou seja, a gota d’água, o pequeno detalhe em seguimento a uma série de eventos, que torna a situação insuportável – Nota do tradutor]. Se não colocarmos esta lei neste contexto, seria um verdadeiro mistério não termos um completo caos em todos os fenômenos em que toda e qualquer alteração de minutos constantemente levasse a alterações massivas em todo o sistema.

Idealismo

Há também uma nota detectável de idealismo filosófico (isto é, do ponto de vista de que a mente cria ou determina a questão) dos cientistas no programa, ao explicarem a imprevisibilidade dos sistemas emergentes devido às “simples regras matemáticas” que aparentemente dão início ao processo determinado, e que logo divergem enquanto pequenas discrepâncias e desvios da “norma” se transformam em grandes discrepâncias. Mas logo surge a pergunta: de onde vêm estas pequenas divergências da simples regra matemática, e de onde vem a própria regra matemática que define o sistema em movimento? Na realidade, a matemática somente generaliza mais ou menos aproximadamente o sistema infinitamente complexo e completo de causa e efeito que é a natureza.

Essa é a única maneira de se explicar como as “regras” que parecem governar a realidade tanto podem mudar e divergir quanto retornar. Curiosamente, o apresentador estabelece um sistema de realimentação em que uma câmera o filma de pé frente a uma tela que exibe, com pequeno atraso, a imagem do apresentador sendo filmado pela câmera. Devido à pequena defasagem, a imagem começa a divergir cada vez mais do original, até que surgem novos padrões completamente por conta própria, enquanto a imagem interage com diferentes versões de si mesma. Assim, os padrões que emergem são a concentração de todas as interações das imagens projetadas com atraso, enquanto o evento original está sendo filmado.

O princípio por trás disso é extremamente importante para os marxistas, porque mostra como algo decorrente de uma base definida e completamente dependente dessa base, pode, através da interação constante e da retroalimentação com sua base, desenvolver suas próprias leis e tornar-se parcialmente independente de sua base. É assim que devemos compreender, em seu sentido mais geral, as ideias humanas, a cultura, a política e a ideologia, que são dependentes da base econômica material da sociedade (e, finalmente, da natureza como um todo), mas que desenvolvem sua própria lógica que surge a partir das contradições da base material e que interage constantemente com ela. Como disse Lênin, a política é a economia concentrada.

Crise

Da mesma forma que todas as coisas naturais devem se submeter a leis e à organização, também entram em crise, se rompem e deixam de existir. Quantas estrelas tiveram que nascer somente para explodir depois. E quantos planetas que já existiram colidiram antes do desenvolvimento das condições para a vida? De forma semelhante, uma série de crises do capitalismo inevitavelmente conduzirá a classe trabalhadora à compreensão de que o sistema capitalista como um todo deve desaparecer. A tendência à auto-organização na natureza é somente a base para a consciência, que pode atingir a perfeição somente em uma sociedade libertada, uma sociedade socialista, consciente de todas as necessidades da sociedade.

Se a evolução levou à consciência, isto ocorreu apenas porque deve ter sido favorecido o seu surgimento nas condições da natureza. Da mesma forma, os marxistas podem mostrar como as condições do capitalismo e da luta de classes se tornam favoráveis, mesmo necessárias, à classe mais avançada criada pelo capitalismo, a classe trabalhadora, que tem uma teoria totalmente consciente e uma direção, encarnadas nas ideias do marxismo.

Fonte: https://www.diarioliberdade.org/mundo/batalha-de-ideias/15881-caos-ciencia-e-marxismo.html Pagina visitada em 05/12/2013